"Psicanalista: Profissão Possível?"
Psicanalista Rúbia Maria Tavares Delorenzo


“Nós que aqui estamos por vós esperamos”: esses são os dizeres que dão nome ao filme de Marcelo Mazagão, que documenta em imagens uma breve história do século que termina. Século que viu nascer nosso ofício. Ofício que viu nascer nosso século.
Evoco ainda o documentário, já que inicia suas memórias com uma alusão a Nijinski, que mudou a história da dança. E, na seqüência, em meio às filmagens do mundo em 1900,
outra alusão, agora à psicanálise, registrada na legenda muda: “Os sonhos já são interpretados”. Freud: mudança na concepção do homem.
De fato, na virada do século, a “Interpretação dos Sonhos” é dada a conhecer.

Aos 29 anos, quando a ambição o devora, Freud não pensa senão em perturbar o sono do mundo com uma grande descoberta .
Dez anos mais tarde, é num sonho, que seu projeto de elaboração de um modelo de aparelho psíquico, encontra seus primeiros elementos: o sonho da Injeção de Irma. Inaugural, paradigmático .

Freud já sabia do sentido dos sonhos, de que são realizações de desejos, mas aqui se defronta com a natureza perturbadora dos desejos presentes nos sonhos. Abre-se para ele, os subterrâneos do desejo repelido, do desejo inconsciente: infantil e sexual.
O sonho da “Injeção de Irma” reúne o circulo próximo a Freud – colegas, pacientes e amigos judeus – onde os conflitos adquirem um relevo mais contundente, as rivalidades um caráter familiar e suas relações, o matiz da ambivalência. As figuras de sua vida e de seu teatro interior ocupam a cena onírica. A infância feliz em Freiberg, os vínculos familiares, confusos pela diferença de geração entre seu pai e sua mãe, as doenças e indisposições de seu corpo, tudo está presente neste sonho – princeps.

Freud nos confessa: escreveu a Interpretação dos Sonhos em reação à morte de seu pai . Lança-se desde então, a um imenso trabalho de escavação em seu passado, iluminando as sombras da memória, com os fragmentos recalcados de sua infância. Fará ele dos sonhos e primeiramente dos seus próprios sonhos, o seu objeto de investigação apaixonada. Fará do sonho, o modelo das formações do inconsciente, onde os desejos contraditórios da infância podem ao mesmo tempo, consumar-se e dar-se a decifrar. Elucida seus mecanismos: condensação, deslocamento, elaboração secundária. Sonho: objeto de angústia e de encanto, de nostalgia e de análise.

E desde então, quando cada analista celebra num tratamento, o advento da capacidade de sonhar, não é apenas porque vê nisso uma ocasião de tocar o recalcado no universo psíquico de seu paciente. É porque pressente que essa capacidade suscita nele um outro regime de pensamento.

Da imagem transposta em narrativa, da figura ao texto, é aí que o trabalho de interpretação começa. Decompondo, desfazendo, desmanchando a prosa, para atingir o enunciado do desejo: o infantil, eminentemente singular e fragmentado.

Freud ilumina aspectos essenciais da subjetividade, e sem reduzir seu olhar ao âmbito da psicopatologia, vem estender a indagação psicanalítica ao conjunto da vida cotidiana. Homem de ciência, que não temeu colocar-se à margem dos círculos oficiais, fez da vida privada – do riso e do sonho, do erro e do esquecimento, da infância e da ilusão – o objeto de sua pesquisa científica, e do poder das palavras um instrumento de cura . Por crer em seu poder terapêutico renuncia pouco a pouco ao clássico arsenal médico de seu tempo: eletroterapia, massagens, banhos quentes, etc... Também abandona a sugestão hipnótica, atento aos apelos de suas primeiras pacientes – Lucy, Emmy, Katharina e tantas outras – que queriam falar livremente. Assim Freud se põe à escuta única e nua destas ficções pessoais, surpreendido por seus ecos no corpo das histéricas, sai convicto de que este tinha também algo a dizer.

Então, o consciente, o manifesto, o aparente tornaram-se suspeitos. O oculto, o absurdo, o incoerente, portadores de sentido. Verdade na loucura.
Histerias, fobias, obsessões: esse foi na origem, o campo inaugural que se oferece aos seus sentidos, instigando-o na aventura do descobrimento. Dora, Hans, Lorenz, entre outros, pequenos personagens, histórias prosaicas que se imortalizaram pela pena de Freud, são hoje referências caras a todo analista, no que aludem às paixões da alma, transferências, ao excessivo e traumático da sexualidade, a reatualização do infantil, ao valor dos sonhos.

Mas, se o século avança em meio às guerras, à violência, às mortes constadas nas estatísticas, a psicanálise também avança no século. Instalam-se agora em seu corpo, para além do universo do representável, do deciframento, do sexual, oposições que darão novos tons ao campo de pesquisa que se estende entre o sonho e a dor. Se as dualidades sempre estiveram presentes no pensamento freudiano desde o primeiro tempo de sua elaboração, depois dos anos 20, elas passam a se configurar no antagonismo irredutível entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. A partir de então, é a violência àquilo que se oferece ao olhar do psicanalista: violência do desejo, do conflito, do superego. Violência da cultura.

Freud dedicou sua vida a desbravar o universo psíquico humano. Desvendou os sentidos do cotidiano, os enigmas da filiação, do desejo, e da linguagem. Num mundo em litígio, tematizou sobre o narcisismo, a violência e a morte.
Freud, desbravador do inconsciente, terra estrangeira, desconhecida, fez marca na memória cultural de nosso século.

Assim, não poderia deixar de estar presente na abertura do filme que abriu minha fala.
Mas, é pura memória?

Estará viva a psicanálise, neste terceiro milênio que se anuncia? Essa velha dama indigna, que é nossa ciência artesanal sobreviverá aos sombrios tempos do futuro?
Em “A Moral Sexual Civilizada e o Nervosismo Moderno” (1908), Freud transcreve o testemunho de um dos observadores de sua época (W.Erb.). A citação é a seguinte:
“As extraordinárias realizações dos tempos modernos, as descobertas e as invenções em todos os setores e a manutenção do progresso... só foram alcançadas por meio de um grande esforço mental. Cresceram as exigências impostas à eficiência do indivíduo... Simultaneamente, em todas as classes aumentam as necessidades individuais e a ânsia de prazeres materiais... Tudo é pressa e agitação. A noite é aproveitada para viajar, o dia para os negócios, e até mesmo as viagens de recreio colocam em tensão o sistema nervoso. As crises políticas, industriais e financeiras atingem círculos muito mais amplos que anteriormente. A vida urbana torna-se cada vez mais sofisticada e intranqüila. Os nervos exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo em ainda maior exaustão. A literatura moderna ocupa-se de questões controvertidas que despertam paixões e encorajam a sensualidade, a fome de prazeres, o desprezo por todos os princípios éticos e por todos os ideais.”

Ainda que essas palavras nos arremessem prontamente ao mal estar da atualidade, o sistema de ilusões contemporâneo, tal como hoje se configura, parece-nos distinto do sistema estudado por Freud .
Assim, hoje, é preciso manter o essencial da psicanálise, em circunstâncias muito diversas e adversas.

Desde Freud, sabemos que a psique e suas várias organizações são aquisições culturais. Cem anos de produção do saber do inconsciente, reafirmam a importância da cultura em sua constituição. Desta forma, o trabalho sobre o inconsciente – instância psíquica que se funda na confluência entre o campo do real e do social – não pode ser pensado à margem das grandes transformações operadas na pós-modernidade.

Decreta-se hoje, em alguns âmbitos, a morte da psicanálise. O inquietante debate sobre sua perdurabilidade ou sem fim, levanta-se em nossos dias, tanto em função do discurso da ciência encarnado nos avanços da pesquisa neurobiológica, da engenharia genética, dos novos psicofármacos, como em função dos impasses observados no âmbito da clínica e das novas condições históricas do mal estar da civilização.

A medicina e a psiquiatria, saberes com os quais a psicanálise se confrontou em sua origem, ao interpretar os sofrimentos do homem – seus sintomas, sua angústia – como produções autênticas do sujeito inseridas no campo do sentido, são as mesmas tradições que, na atualidade, instigam a polêmica sobre o futuro do saber psicanalítico.

A imensa difusão das drogas psicotrópicas, assim como a multiplicação das tecnologias médicas visando o domínio sobre as disfunções cerebrais, compõe hoje um ideário que pretende – em sua onipotência neurofarmacológica – a insuficiência e o fracasso da psicanálise para se defrontar com as perturbações psíquicas. No entanto, sabemos que o discurso científico, com suas verdades fragmentárias e transitórias, se em determinado momento lançam luz sobre algumas zonas da realidade que estudam, deixam sempre outras na obscuridade.

Portanto, não se trata aqui, de provar a superioridade da psicanálise, pretendê-la, por sua vez, saber absoluto, mas de indicar o potencial de ilusão inesgotável contido nas razões científica e tecnológica, expresso nas promessas de controle e de soluções rápidas e eficientes para a dor humana.

Tampouco se trata de, indiscriminadamente, se insurgir contra o uso de psicofármacos, propor a substituição de uma prática clínica por outra, nem de sustentar uma discussão que as oponha. Suas eficácias são diferentes, como não são semelhantes suas problemáticas. Trata-se sim, de explicitar suas éticas e considerar as distintas concepções do homem que regem suas ações.

Diferentemente das concepções das neurociências, cujo horizonte de ação visa um corpo biológico, em que o compromisso subjetivo se encontra ausente, o homem da psicanálise é outro. É sujeito habitado pelo inconsciente, sujeito por excelência do conflito, sujeito da linguagem, no qual corpo e psique estão intimamente enlaçados na figura de um corpo pulsional.

Para a psicanálise, as pílulas, poções mágicas que adormecem os circuitos da dor psíquica, que pretendem liquidar as sombras e tristezas de nossa alma, dissipar nossa melancolia, e lançar ao esquecimento nossos males, ameaçam interferir naquilo que é mais caro ao homem: sua perene insatisfação, seu descontentamento sagrado que é nossa fonte de busca e de projeto, que nos conduz ao esforço da criação.

Por isso, é preciso atenção ao elogio à felicidade química pois este vem frontalmente chocar-se com questões éticas, cuja discussão já não podemos postergar.
Mas, para além da luta frontal contra nossas representações do psíquico, hoje encabeçada pelo discurso científico, é preciso também contemplar os outros diversos contextos que se evidenciam, colocando obstáculos à psicanálise.

Dentre ele, tomemos o espírito da época.
Em que mundo a psicanálise deverá pensar sua inserção? Qual é o estilo de sujeito que é positivamente destacado na atualidade? Quais são os ideais que devem pautar sua forma de ser?

Se até a década de 50 vivíamos no “Século de Freud”, dos anos 60 em diante, passa a vigorar a pós-modernidade. Sociedade de Consumo, Era da Imagem, Cultura do Narcisismo, Sociedade do Espetáculo, essas são as denominações contemporâneas que visam caracterizar as formas emergentes de subjetividade da nova ordem social.

Cultura da abundância e do consumo, nossa era dita leis de equivalência entre o acesso à plenitude e a possessão dos objetos. Pretendendo uma saturação permanente da carência com a ilusão de completude oferecida pela incorporação, vem assim negar as perdas, os lutos, à elaboração. Desta forma, o ideário de nosso tempo nos propõe uma conexão inquietante entre a lógica do consumo e o universo das adições: adição à imagem televisiva, à ingestão de álcool, sedativos, psicofármacos, anorexigenos, bem como a adição às drogas pesadas que acenam sempre com um gozo total.

No contexto da contemporaneidade, tudo se dá pelo universo da imagem. Com seus códigos de idéias de impacto, simples e breve, é na linguagem dos slogans publicitários que se veiculam as vias para “ser”.

Produzindo o imaginário social, a lei despótica da mídia, compõe o perfil das identidades, encarnando os mais recentes ideais. Tais valores escravizantes, com suas conseqüências funestas, todos nós os conhecemos: o mandato do êxito e da eficácia, da fama e do poder; o imperativo da juventude e também o da beleza.

Competir, agredir às vezes, defender-se sempre: elogio ao individualismo, abolição da solidariedade como forma de laço social.

No campo do erotismo, ser ligeiro e leve, alegre e divertido, nada de “discutir a relação”. Que valha o lema: uma boa dose de hedonismo , laços frouxos e pouca culpa.
Esse panorama, tal como nos é descrito por teóricos preocupados com as sociabilidades emergentes no pós-modernismo vem colocar em relevo a temática do narcisismo. É o espetacular, como referência privilegiada na definição positiva de ser das novas individualidades, que nos envia pela extensa teia dos elementos que o configuram, à problemática da exaltação do eu. A sedução, o exibicionismo, a obrigatoriedade de mostrar-se performático na cena social, é toda esta configuração que nos alerta para o destino opaco reservado ao outro e à intersubjetividade. Aqui, ser é parecer plasmar-se na imagem, dar-se a ver.

Certamente, este terreno onde fermenta a exacerbação narcísica, pela deteriorização e quebra das utopias e ideais simbólicos, pela perda de vínculos significativos, produz seus efeitos sobre a psique, gerando subjetividades fragilizadas, produzindo verdadeiros colapsos de identidade e uma cultura de violência.

Tais efeitos, para além da cena social, nós hoje também os reconhecemos no âmbito de nossa clínica. Assim, os deprimidos acossados por suas perdas, e os assustados, pela expressão de um desamparo abissal que irrompe em seus corpos, vem gritar seu total desajuste a um mundo que consagra e reverencia as celebridades.

Para esta legião de sofredores, os marginais de nosso tempo, não há lugar na cultura da exaltação desmedida do eu, diante da qual capitulam de onde se sentem banidos, ante a impossibilidade de consumir e aparecer. Mas, para além das depressões e dos pânicos, nossos consultórios vem sendo hoje visitados, por outras problemáticas, que colocam novas questões à teoria e à prática, com a qual trabalhamos vindo interrogar os limites da psicanálise.

No momento, são as anorexias e bulimias, as adições, as doenças psicossomáticas, algumas destas problemáticas que se superpõem às sintomatologias mais freqüentes em outras épocas.

São muitos os autores que vem indicar as conexões desse campo psicopatológico com o espírito da pós-modernidade. Retomo suas idéias, lembrando sempre que este é apenas um recorte em nosso campo de reflexão, sem esquecer que a singularidade nunca é redutível a uma categoria nosológica, nem determinada por um único elemento, e que para o psicanalista é seu centro privilegiado de atenção.

Assim, tais conexões não devem se contrapor aos traços estruturais universais próprios ao ser humano. As eficácias do inconsciente, os destinos do Édipo, o sonho, o lapso, o sintoma, são expressões de uma divisão subjetiva que subsiste para além do campo histórico. O que nelas se enfatiza é que os modos de construção das formações subjetivas, não estão alheios aos códigos da cultura.
Certamente, a presença desses quadros não é um acontecimento recente. O que sim é recente é sua pregnância na cena social, o que os transforma nas doenças do fim do século.

Como dissemos as problemáticas da adição, da enfermidade psicossomática e das anorexias, guardam hoje, estreita relação com as formas de alienação próprias de nossa época. Configuram-se como formas loucas daquilo que, no entanto, é considerado ideal.
Assim, a mística do consumo que impregna os modelos culturais predominantes, o desconhecimento da interioridade e a tirania dos padrões estéticos vigentes, vem articular-se em seus extremos, na produção desses sofrimentos que sugerem uma superadaptação.

A fantasmagoria do gozo pleno – propiciado pela ingestão da droga – que sidera o toxicômano, vem se inserir nessa lógica: lógica do consumo, como via de acesso privilegiada da satisfação. Neste sentido, a adição vem presentificar a consigna da época: fuga dos sentimentos de fracasso e impotência, fuga das sensações de vazio, fuga da dor psíquica.

O adicto, com sua patologia de sujeição e dependência, vem deste modo expressar a mais dramática figuração do submetimento a um ideal totalitário de gozo.
Por sua formulação inexorável, que impõe a exclusão ao diferente, os ideais absolutos se constituem em formas da violência da cultura: seja pela adesão trágica a que obrigam seus mandatos, seja pela recusa rebelde que tenta negá-los. Aqui, nos encontramos com a anorexia.

Com seu corpo evanescente, expressão extrema do mortífero, o que tenta nos dizer a anoréxica de nossos dias? Ao que busca moldar-se? Aos ideais despóticos de magreza de nosso tempo? À onipotência do eu, quando sugere prescindir da auto-conservação e da sexualidade? Ou, por outro lado, a que busca contrapor-se? À exigência de incorporar que torna escravo o adicto? Não sabemos. O fato é que a recusa a se alimentar, longe de libertá-la, acaba se tornando para a anoréxica tão coercitiva, quanto o é para aquele que se droga, consumir. Pensada pela psicanálise em seus enlaces com a pulsão de morte, hoje, erigida em objeto ideal da era do consumo, é a própria anoréxica quem vai se consumindo, requerendo modos específicos de acesso, questionando os eixos de nossa função analítica.

É ainda o corpo que vem nos ocupar na consideração dos nexos possíveis entre psicopatologia e cultura. Agora, o corpo do paciente psicossomático, para quem o conflito parece não encontrar outra via de retorno, além do real da própria corporalidade.
A promoção social do corpo como moldura sem interioridade, a valorização do pragmatismo da ação, a banalização da vida subjetiva e relacional, parecem encontrar muitos pontos de expressão na subjetividade psicossomática. Entre eles, o desconhecimento dos afetos e um corpo cindido do universo representacional.

Com sua pobreza emocional, sua linguagem formal e desafetivizada, de mero valor instrumental, carente de emoção e implicação pessoal, o sujeito psicossomático vem encarnar em excesso as exigências de ser culturais.
Indiferente, operatório, pragmático, mantém sua vida adaptada ao preço da pulverização de seus afetos. Então, é o corpo que sofre, recolhendo em seu reduto único, a afetividade sufocada, dispersa excluída de qualquer simbolização. O sintoma, errante, se reduz então à doença, perdendo seus laços com o conflito, com o sentido, a significação.
Assim, ao lado das neuroses, perversões e psicoses, nos convoca na atualidade, todo um conjunto de problemáticas cuja complexidade vem exigindo uma ampliação de nosso campo conceitual, ao mesmo tempo que interroga os alcances de nossa escuta e nossos modos de intervenção.

Mas, a emergência de novas configurações psíquicas e de outras formas de subjetivação diferentes das matrizes clínicas que a psicanálise descreveu e conceituou, não deve nos constranger. Poderá constituir para o psicanalista um enorme desafio, mas nunca decretar o fim de nosso ofício.

Desde sempre, o projeto da psicanálise se expressou pelo trabalho de desconstrução, reconstrução e historicização do sujeito. Operando no sentido de liberar o peso das reminiscências, significar os traumas e remanejar os sintomas, oferece as condições para a abertura da subjetividade, para a criação de novos sentidos da existência.
A psicanálise, que sempre pretendeu a desconstrução da majestade do eu, nesse processo, continuará visando o deslocamento do sujeito com relação ao submetimento acrítico aos ideais absolutos de seu tempo, buscando abrir a economia narcísica para outras e novas significações.

Sua tarefa, hoje e amanhã, é a de devolver ao sujeito, seu lugar de sujeito, convocando seus demônios, sua dor, para torná-los criação, projeto singular, sublimação.
É operando num espaço de expressão daquilo que pulsa nas margens, nas fendas, nas bordas do psiquismo humano, que a psicanálise deve continuar o seu fazer, no contra fluxo do discurso sacralizado, das crenças rígidas e homogeneizantes, pelas quais vocifera a violência cultural de nosso tempo.

Como se sairá deste embate, não sabemos.
Mas, se a psicanálise é clínica do inconsciente e se seu objeto é o desconhecido, não devemos capitular. “A escritura do desconhecido é a vocação da psicanálise... ela lhe oferece essa entrevista inesgotável, através do imprevisível da linguagem. Fazer o inconsciente fluir poiéticamente através dela, é o trabalho do psicanalista”.

Rúbia Maria Tavares Delorenzo
Novembro de 99 – Fim do Milênio

Bibliografia

1. Joel Birman, Mal-estar na atualidade – A Psicanálise e as novas formas de subjetivação, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira.
2. Joel Birman, Um futuro para a Psicanálise – Sobre a Psicanálise no Século XXI , São Paulo, Revista Brasileira de Psicanálise – Vol. XXVII, n.º 4.
3. Joel Birman, As alquimias no mal-estar da atualidade, Jornal do Brasil, 17/06/97.
4. Contardo Calligaris, Um narcísico mundo novo, São Paulo, Caderno Mais – Folha de São Paulo, 21/8/94.
5. Carmen da Poian, O futuro da Psicanálise, São Paulo, Boletim de Novidades Pulsional, Ano IX, n.º 81 de janeiro 1996.
6. Lydia Flem, A vida cotidiana de Freud e seus pacientes, São Paulo, LP&M Editora S/A.
7. Eduardo Giannetti, A pílula da felicidade instantânea, São Paulo, Folha de São Paulo, 28/05/98.
8. Maria Cristina Rios Magalhães, Haverá psicanálise no século XXI ou a Psicanálise tem futuro?, São Paulo, Boletim de Novidades Pulsional, Ano IX, nº91, Novembro/96.

 
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