Qual é nossa tarefa como analistas e como a executamos?
Psicanalistas Beatriz Mecozzi e Daisy Maria Ramos Lino


O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio), filme mais recente do diretor italiano Nanni Moretti e Palma de Ouro na última edição de Cannes, foi escolhido para tema do 7º Encontro Psicanalítico do TRIEP.

O personagem principal, Giovanni, é um psicanalista que trabalha em Ancona, na região italiana do Marche, e convive no seu trabalho com os vários dramas de seus pacientes: o do homem que quer suicidar-se, o da mulher obsessiva, o do adicto em sexo, enfim, dores e neuroses de todos os tipos e intensidades. Em casa, Giovanni é um homem feliz ao lado da mulher, Paola, uma editora de livros, e dois filhos adolescentes, Andrea e Irene. Um dia, Giovanni se vê de frente com sua própria tragédia, e se torna incapaz de controlar a crise que se instala em sua casa e ameaça desestruturar suas relações familiares. A família, unida e feliz, começava a se ver diante de problemas com o filho adolescente que, de uma hora para outra, morre num acidente no mar.

O psicanalista convidado, Sergio Telles, abordou aspectos interessantes do ponto de vista do analista. Com a perda e a dor pela morte do filho, o psicanalista competente entra em crise com sua vida e sua profissão e não consegue mais trabalhar.

É fácil entender que ao perder um filho qualquer pai e/ou mãe possa “perder a cabeça”. No caso do personagem principal, Giovanni, este perde a clareza de sua escuta psicanalítica, porém segue atendendo seus pacientes até o momento em que percebe ter chegado ao ponto máximo de sua condição de trabalho, ao limite.
Durante o esse nosso 7encontro discutiu-se a reação de Giovanni. Regredido, refugiou-se em sintomas obsessivos, e passou a se torturar pela dúvida do que poderia ter feito para evitar o acidente que vitimou seu filho. Giovanni impõe a si mesmo um sentimento de culpa que o faz se interrogar, ininterruptamente, como tudo teria sido se não tivesse, por exemplo, ido ver um paciente no fatídico domingo de manhã, ao invés de ir correr com seu filho. Pensa, angustiado, a respeito do quê poderia ter feito para que o filho não tivesse ido àquele passeio. Obsessão por trazê-lo de volta.

O público fez questões sobre a possibilidade de representação das experiências-limite como a morte; a durabilidade das análises; as instâncias parentais, dentre outras.
Para nós do TRIEP, nesse a posteriori ao encontro, restou, dentre muitas, a questão da análise do analista e a inesgotabilidade do conteúdo inconsciente.

Giovanni, no auge da dor, procura seu supervisor para questionar o atendimento ao paciente que diz “associar a morte de Andrea”, mas não busca um analista. Aqui vimos disparar nosso desejo de pensar sobre a resistência dos analistas à própria análise.
Freud em Análise Terminável, Interminável diz:
“Todo analista deveria periodicamente – com intervalos de aproximadamente cinco anos – submeter-se mais uma vez à análise, sem se sentir envergonhado por tomar essa medida. Isso significaria, portanto, que não seria apenas a análise terapêutica dos pacientes, mas sua própria análise que se transformaria de tarefa terminável em interminável”.

Freud, com a criação da IPA – International Psychoanalytical Association – em 1910 e cujas ramificações chegaram a quase todos os países da Europa e, até os da América do Norte, assim como os da América Latina, alimentou a esperança que o objetivo de ensinar a prática da análise e formar os candidatos fosse realizado em condições de garantir a competência dos analistas formados. Uma condição daí colocada foi a das chamadas “análises didáticas”.
O problema da formação de analistas existe desde Freud e foi a origem de cisões nos institutos de psicanálise do mundo inteiro. Rios de tinta já foram derramados tratando-a como “instrumento de poder”, “reserva de mercado” exercidos pelos analistas-didatas. Horas intermináveis de debates foram gastas sobre essa prática e inúmeras instituições tomaram as mais diversas posições contra ela, com o objetivo de contornar suas vicissitudes: o poder transferencial, a doutrinação dos analistas em formação, as complicações da moldura analítica por diversos fatores institucionais.

Podemos estender essa problemática aos cursos de graduação em psicologia e psiquiatria, nos quais quando alunos sempre fomos confrontados com a pergunta: “Você entrou aqui para se tratar ou veio para estudar”? Com esse tom belicoso, nossos professores buscavam chamar nossa atenção para a necessidade de que fizéssemos, enquanto alunos da área da saúde mental, nossos próprios tratamentos. Para sermos justos, devemos reconhecer que esse empurrão dado por nossos professores, era com o objetivo de que nos desalienássemos, através do tratamento – terapia ou análise-, de uma postura, meramente, escolar. Afinal, aprender, teoricamente, sobre a saúde mental é possível a qualquer um, coisa muito diferente da aquisição de um saber a partir da experiência terapêutica, analítica. Saber, esse sim, capacitador da passagem do lugar de aluno para o de terapeuta, de analista.
Deste modo, o que experimentamos hoje é uma completa falta de regulamentos capaz de auxiliar na formação dos analistas, que seguem suas práticas, muitas vezes, sem um mínimo de cuidado, sem orientação, atuando suas neuroses na clínica tal como na vida. Assistem aos seminários teóricos, fazem supervisões clínicas, muitas vezes exigidas pelos cursos de formação, porém nada de análise pessoal.

E, pelo lado da instituição como fazer valer a regra de que é imprescindível que analistas sejam analisados? As instituições, para não serem acusadas de abuso de poder, devem ficar na dependência do desejo espontâneo do candidato a analista – de quem esperam, apenas, que desejem sua análise pessoal na hora certa?
Ora, se o uso da análise didática como regra pode ser considerado “perverso”, o que dizer da “liberdade” para o autoconhecimento de hoje em dia?
A nosso ver, nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Uma formação em psicanálise deve ser composta por uma variedade de atividades tais como: seminários teórico-clínicos, leituras orientadas dos textos psicanalíticos, supervisões clínicas, palestras, cursos de especialização, e, sobretudo, de uma análise pessoal, capaz de transformar o sujeito que se lança nessa aventura – ser psicanalista.

Como aprender a analisar sem passar pela experiência da própria análise?
Na análise pessoal, o analista retoma o contato com a criança que nele existe, melhor dizendo, com as etapas da sua infância que remetem à “crise” de loucura. Redescobre uma linguagem esquecida, as palavras perdidas de um dialeto materno: são essas palavras que lhe vão servir para escutar seu paciente.
A análise de suas dificuldades psicológicas ajuda a abrir o campo para uma escuta genuína do paciente. Analisar-se é matar a criança ideal para dar lugar à criança real, é renunciar à onipotência infantil e, por que não, à ilusão do analista perfeito. É elaborar um luto. E, é nesta possibilidade de retorno que vamos rever os processos de idealização.

“A ilusão é algo que surge de um desejo: o de evitar o contato com a vulnerabilidade humana, criando uma figura de pai protetor, sem falhas nem faltas, recriado na onipotência e na onipresença de uma figura divina. A ilusão narcísica de plenitude.”
Giovanni, o psicanalista do filme O Quarto do Filho, se indigna com a frase do padre na missa pela morte do filho: “Se o dono soubesse quando sua casa vai ser roubada, tomaria conta dela”.
“Que frase é essa?” pergunta e responde angustiado: “Está tudo quebrado”! O fato é que ninguém pode prever o futuro, evitar os acidentes, driblar o sofrimento. Isso está escancarado na tela, junto com a humanidade de todos. E analisar sem ser analisado é fugir desta condição para assumir, apesar dos altos custos, a onipotência narcísica.
Portanto, quem sabe, ainda reste perguntar se a atitude do personagem-analista, Giovanni, quando decide interromper sua prática, já não foi o resultado de uma análise capaz de fazê-lo, justamente, elaborar alguns de seus lutos, a ponto de capacitar-lhe a noção de seus limites? Sem esquecermos de que o inconsciente, assim como o mar, que enche a tela durante todo o filme, é fonte inesgotável de conteúdos nunca visitados.

Jundia í, outubro de 2007.
Beatriz Mecozzi
Daisy M. R. Lino
 
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