O Castelo de minha Mãe ou O castelo da criança de todos nós
Daisy Maria Ramos Lino Psicanalista, fundadora do TRIEP


O filme O Castelo de minha mãe no circuito comercial está classificado como comédia romântica. Suscita admiração a leveza da sua narrativa e sua condução por um romantismo pueril. Com o eixo centrado em um romance familiar, provoca riso fácil, mas também, a experiência do impacto com o encontro de um sentido que surpreende.

Sabemos quantos dramas se desenrolam nos Romances Familiares , raramente classificáveis como comédia. Raros são os momentos desses romances que se deixam levar pelo desprendimento de uma “sessão da tarde”, no prazer dos risos fáceis. As histórias que escutamos na nossa prática clínica e na vida cotidiana que nos diga.

O final do filme ilustra o conceito freudiano de "aprés-coup", a posteriori. A informação de que a propriedade recém adquirida pelo cineasta era “o castelo do medo de minha mãe” ressignifica toda a narrativa. O efeito do "aprés-coup" permite, além do surpreendente, admirar a habilidade do cineasta na belíssima reconstrução desse “romance familiar”.

Pretendo, aqui, fazer um recorte a partir de alguns pontos da narrativa do filme à luz de certos conceitos psicanalíticos estudados em nosso curso de Psicanálise (2003).

Um menino, deitado na sua cama devaneia com olhar distante, quando é chamado por sua mãe. No encontro de olhares seu rosto se ilumina: “Mamãe!”, diz o menino. Com expressão de júbilo, há uma fascinação aonde o menino se deixa capturar no olhar da sua linda mãe, sem se separar. Pois quando eu te vejo eu desejo o seu desejo.
“Quando olhei o olhar da minha mãe, olhei, percebi nesse olhar eu. Quando olhei o olhar da minha mãe, olhei o desejo dela, aquele antigo...! O de seu Édipo, que também é atual. Quando olhei o desejo dela, achei que eu era isso. Esse olhar, esse lugar que olhei, reconheci-o como sendo eu, percebi sua falta e seu desejo”.

No filme O Castelo de minha mãe podemos ver a escolha pelo cinema como sublimação das experiências e vivências traumáticas, como tentativa de domar a dor das feridas psíquicas do menino sonhador.

A cena de humilhação da família que expõe seus pertences, que exibe sua intimidade por força da “lei” arbitrária nos faz perguntar: como podemos articular os pensamentos: “a porta da humilhação de meu pai” e o “castelo do medo de minha mãe?”.

Uma mãe. Aquela que busca, de qualquer forma, a realização de seus desejos. Conquista a amizade da mulher do diretor da escola para alterar os horários de trabalho do marido e voltarem na segunda-feira das montanhas; convence o marido a encurtar os caminhos... E os seus desejos são afiançados por sua “fragilidade”, pelo seu lugar vitimizado na família: com os ares da montanha volta mais corada, “mamãe precisa ir à montanha”. Uma mãe sedutora, que convida o seu menino a ser aquele da sua satisfação, ser no desejo dela.

Freud, inicialmente, a partir da clínica teoriza as neuroses – a teoria da sedução e a estreita vinculação entre a sexualidade e o recalque postulando que o recalcado é o sexual. Com a sua grande desilusão – “não acredito mais em minha neurótica” – começa a pensar que não é todo o pai um perverso, e passa a postular a sexualidade infantil fazendo total demolição da teoria sexual humana como sexualidade instintiva, com objeto fixo, com comportamento predeterminado. Constrói a sua teoria da sexualidade humana falando do corpo pulsional.

No seu texto Três Ensaios sobre Sexualidade, postula a teoria do apoio, fundamental para entendermos que a pulsão nasce apoiada na função vital e assim encontra objetos sempre contingentes, dando, a partir desde momento, nascimento à fantasia. Freud começa a pensar o sintoma como representação de uma fantasia sexual inconsciente.

Nas origens da psicanálise, Freud constrói sua teoria indo do trauma para a sedução e, por fim, a fantasia. Assim, acompanhamos em sua pesquisa da neurose, a substituição do pai, como primeiro sedutor, pela mãe.
A criança nasce corpo biológico, e é na relação primordial da mãe com o bebê – que não é uma relação autoconservativa, mas já libidinal – na qual a mãe faz a função materna: erogeneizar o corpo do bebê.

É a mãe quem libidiniza o corpo da criança, é através dela que vai se inscrever o plus de prazer com relação à primeira experiência de satisfação mencionada por Freud. ”Esses traços de gozo corporal se instituem na segurança que é dada a essa criança neste momento de desamparo absoluto pela presença de quem cuida dela. Em geral, a mãe dá suporte a esta função de inscrever no corpo estes traços do gozo”.

Este bebê - o falo simbólico de sua mãe - dentro dela equivalem: pênis, filho, presente, dinheiro. Nesse sentido, a angústia de castração está ligada ao momento da percepção da diferença sexual anatômica e localiza-se sob aquele órgão investido falicamente. Enquanto a questão do gozo intolerável liga-se a essa idéia de ser o falo da mãe e como tal subsumir-se neste corpo materno.
“... a mãe tem a ver com estes traços do gozo, por isso que este incesto só existe com a mãe. Incesto é com a mãe, seja homem ou mulher” .

A criança que permanece no nível de objeto parcial em relação ao desejo materno não constitui o momento da primeira imagem corporal, a primeira identificação do eu; subsumir-se totalmente no desejo materno implicaria num despedaçamento desta imagem, uma perda narcísica fundamental.
A mãe sedutora do “nosso castelo” se mostra inscrita pela interdição. Tenta, como uma boa histérica, a busca de um outro que possa fazer dos impedimentos da vida uma situação perfeita para não perder nada. Nos acessos de medo ante as portas que encurtavam o caminho, no desmaio mostra um conflito psíquico ante a idéia de que há algo que nenhuma sedução dribla, ludibria. Uma posição fálica que está irremediavelmente perdida.

Freud diz que para emergir a angústia de castração na criança não basta só a ameaça proferida, é preciso à ligação entre dois elementos – a ameaça e a percepção. No menino a castração é temida, alguma coisa pôr vir.
É importante esclarecermos a diferença entre a angústia de castração e o gozo intolerável. Uma coisa é o medo e a recusa de um gozo ilimitado que ameace a integridade de todo o ser, outra coisa é a angústia diante da ameaça de uma castração incidente sobre uma parte limitada do corpo: o falo. Ou tenho medo de perder meu ser, ao realizar o desejo incestuoso, ou me angustio ante a idéia de pôr meu falo em perigo.

O modelo teórico freudiano é o do bebê seduzido, e desamparado que recebe, sobre o seu corpo, uma quantidade de excitação indissociável da função materna e é incapaz de elaboração desse quantum de excitação, mas guarda as marcas da inscrição dos traços do gozo. Então, é uma experiência que se inscreve junto com a sobrecarga energética e que fica em depósito até que algo venha ressignificar. Ficam como as inscrições primeiras do Id até que o Édipo dê as proscrições.

Há coisas que são da ordem da repressão originária, coisas da ordem do enigmático que nunca irá se significar porque não basta à criança desenvolver suas funções egóicas que irá entender.
O gozo intolerável é fantasmático - é da ordem da cena imaginária, alucinada com a mãe, portanto, é o recalcado e, mais ainda, é representação intolerável. Desta maneira, o que diz respeito ao gozo intolerável, é a realização do gozo incestuoso, na fusão com a mãe, a qual na realidade é letal, paralisante e mortífera.

Segundo Nicéias:
“Estes traços de gozo são essa presença materna onde essas funções são cercadas de amor, que tem um encontro de corpo a corpo, quer dizer o imaginário está aí. E são cercadas de palavras também. Nenhuma mãe é muda, se ela não for muda, ela fala, ela canta. Não é por acaso que nós dizemos que mulher, loucura e sexo são coisas vizinhas. Não é por acaso que se tem medo de endoidecer na hora do gozo. Então a capacidade de alucinar, aquilo que Freud dizia da criança que alucina o seio é uma capacidade de reproduzir na ausência deste personagem materno os traços de gozo. A formula de Freud que diz alucina o seio é para dizer alucina o que se impregnou como traço de gozo no corpo do sujeito”.
O que é o traço do gozo? É esta inscrição, o traço mnêmico de que fala Freud; é a marca do além da satisfação da necessidade.

A castração implica na simbolização do outro materno, na perspectiva de escapar desse gozo intolerável, que provoca horror. Simbolizar o outro materno é suportar a ausência para poder supor o desejo da mãe, o qual se realiza fora dessa relação com o corpo da criança.
No filme, o menino espiona do alto da escada os pais apaixonados em uma conversa sobre seus projetos de futuro, felizes pela revelação das quantias de dinheiro guardado por ambos; enlaçam-se em um beijo de amor. O sono, tranqüilamente, conciliado após somar as quantias da riqueza da família, retrata a idéia de que o menino-espião excluído da cena amorosa dos pais assiste a confirmação de que sua mãe goza com o outro, que não está na relação narcísica imaginada com ela, e que, portanto, está liberado para pode sair dela. Soma as riquezas a partir da quantia do pai e assim se permite pensar com outra lógica, fora do registro da lógica fálica.

Essa é uma simbolização que evoca a constituição edípica.
O pai do menino sonhador é um pai capaz de sustentar o desejo da mãe que o mira e demanda que ele a satisfaça. É também o homem desejoso da mãe-mulher, e, por fim, é a garantia para o menino não ser objeto passivo do desejo do outro materno. Deste modo, o menino pode desejar ir para as montanhas, lugar do medo e desejo materno, mas em nome do seu próprio desejo – o amor à nobre princesa arrogante – encontrar as respostas aos enigmas do que é uma mulher.
“Mas a separação, o luto desse amor, o que nos tornará adultos, só será realizável com a condição de que, no discurso materno exista uma semente de ruptura”.

Com a castração e a intervenção da função paterna há um lugar possível fora do terror de sumir no desejo materno, de ser eleito enquanto objeto cujo destino é obturar a falta nesse outro.
A intervenção paterna no O Castelo de minha mãe pode ser pensada na forma como o pai e os representantes da autoridade paterna (professores e diretor da escola) solicitam ao menino que vá, representando a escola, fazer a prova para bolsa de estudo. O pai autoriza e facilita uma identificação viril e transmite as insígnias masculinas quando, ao mostrar a sala de aula, diz ao filho que ele pode saber mais, superá-lo. Um pai que se apresenta castrado e submetido às leis é zeloso e convicto do respeito que se deve ter ao lugar de cada um – “como um funcionário público pode fazer isso”.

O menino sonhador de olhar distante, sonhando acordado é chamado de volta pelo professor e vai apreensivo para a sala do diretor. Ele sabe que existe uma lei, que não se pode transgredir, que não se pode burlar e que a castração o atingirá.

No encontro do cineasta, visto sempre de costas, com o lugar da cena infantil acompanhamos o menino excitado acariciar o leão e derrubar a porta-armadilha que outrora colocou seu pai impotente diante da “lei arbitrária”.
Uma associação possível em relação à cena final: “a porta da humilhação de meu pai” e o “castelo do medo de minha mãe” seria a da criança fálica que renasce das cinzas e, num mesmo momento, dá para a mãe o seu território, enquanto derruba a porta aos pontapés e repara a atribuição ao pai de um saber que o garanta, para não ficar engolido nessa demanda daquele que pode completar a falta no outro.

“Separar-se da criança fálica que habita o inconsciente nunca é uma perda definitiva, pois se é levado a perder e a reencontrar mil e uma vezes, ao longo da existência, a criança da fantasia. O fato de haver terminado um tratamento analítico e superado a prova da angústia de castração confere ao analisando uma única conquista: a de aprender a perder e reencontrar indefinidamente sua criança fálica, mas sendo cada vez menos afetado pela paixão da angústia, porém invadido por um novo afeto que então se impõe: o da dor. A angústia da neurose agora desaparecida cede lugar à dor do luto”.
“A dor do luto não é a dor de perder, mas a dor de reencontrar aquilo que se perdeu quando se sabe que está irremediavelmente perdido”.
Fim do filme: a imagem da linda mãe estampa a simbolização.

Bibliografia
1. S. Freud, (1909), “Romances Familiares”, E.S.B. IX.
2. Música Menino do Rio, Caetano Veloso.
3. Eneida B. Barros, “Eu Narciso Outro Édipo”, RJ, Relume Dumará, 1991 – pág. 8.
4. Nicéias, apostila Curso Histeria.
5. Nicéias, apostila Curso Histeria.
6. Nicéias, apostila Curso Histeria.
7. L. Israel, “Mancar não é pecado”, SP, Ed Escuta, 1994 – pág. 129.
8. J.-D. Nasio, “A Histeria Teoria e clínica psicanalítica”, RJ, Jorge Zahar Editor, 1991.
9. J. – D. Nasio, “A Histeria Teoria e clínica psicanalítica”, RJ, Jorge Zahar Editor, 1991.

 
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